“O Rei amou Esther, mais do que a qualquer outra mulher; alcançando perante ele graça e benevolência... ele (o Rei) pôs a coroa real sobre a sua cabeça e a fez rainha em lugar de Vashiti” (Livro de Esther cap. 2;17).
A rainha Esther é uma das sete profetizes do povo judeu e sua história é contada no Livro de Esther – popularmente chamado de “Meguila” – lido em Purim em todas as sinagogas. A história de Esther se passa durante o reinado de Assuero, rei da Pérsia, que segundo Rashi, era Xerex, sucessor do rei Ciro e que governou o Império Persa durante os 70 anos de exílio do povo judeu.
O Livro de Esther conta que o rei Assuero costumava comemorar anualmente a data de sua ascensão ao trono com um suntuoso banquete no qual reunia em seu palácio todos seus súditos: ministros, servos, nobres, militares dos exércitos da Pérsia e da Média. A tradição conta que o palácio era tão grande, que abrigava milhares de convidados com seus servos e empregados. Nenhum convidado bebia duas vezes na mesma taça. O vinho servido tinha sempre um ano a mais que o convidado a quem era destinado e era produzido por vinhedos de seu próprio país. No terceiro originária da Caldéia de seu reinado, mensageiros – falando as 70 línguas conhecidas na época-foram enviados por todo o reino para convidar para mais uma festa que costumava durar 180 dias.
Num deste dia após uma discussão entre os persas e medos, sobre qual dos dois povos teria as mais belas mulheres, Assuero quis mostrar aos convidados que sua mulher, a Rainha Vashti, originária da Caldéia, era a mais bela entre todas as mulheres. Mandou então, buscá-la e para mostrar sua lendária beleza, pediu publicamente, que viesse completamente nua, usando somente a coroa real. Mas Vashiti se recusou a comparecer da forma pedida suscitando a ira do rei. Assuero, então consultou seus ministros sobre o que fazer com a rainha.
Estes afirmaram que a rainha Vashiti não só se rebelou e ofendeu o rei, mas também aos princípios presentes à comemoração. O rei não poderia deixá-la impune, pois se o fato se tornasse do conhecimento das outras mulheres elas poderiam seguir o exemplo e desobedecer aos maridos. O rei então, repudia Vashti e manda executa-la, incumbindo seus ministros de encontrar candidatas de igual beleza para sucedê-la.
Os ministros mandaram trazer de todas as partes do reino, mesmo dos lugares mais distantes, todas as mulheres jovens e bonitas, não importando se eram casadas ou solteiras. Os delegados reais de cada região reuniam-nas às vezes, contra própria vontade e o rei mandava buscá-las e levá-las ao Palácio Real.
Em Shushan, a capital do Império Persa, havia um judeu da tribo de Benjamim que se chamava Mordechai, que acolhera em sua casa sua sobrinha Hadassa, após a morte dos pais.
Hadassa que passou para a nossa história pelo o nome de Esther era uma linda moça a quem Mordechai criara como se fosse sua própria filha.
Alguns sábios acreditam que o nome Esther foi acrescentado mais tarde e significa “a escondida” ou “aquela que esconde”, pois ela ocultou sua religião perante o rei, seu marido, durante muito tempo.
Apesar de Mordechai ter tentado esconder Esther, quando tornou-se conhecida a vontade do rei em todo o reino, ela acabou sendo levada até o palácio onde ficou sob os cuidados de Hegai, o guarda das mulheres. Uma vez dentro do palácio, Esther, dona de rara beleza, recebeu sete damas de companhia para servi-la. Mas diferentemente das outras mulheres, jamais pedia jóias, roupas ou perfumes ao guarda das mulheres e, tão pouco, comia carne. Isso deixava Hegai transtornado, com medo de ser responsabilizado e enforcado. Esther sempre o acalmava, assegurando-lhe que o rei nunca iria notá-la no meio de tantas beldades.
Quatro anos se passaram para as mulheres ficarem bonitas. Depois deste período, cada uma delas foi levada perante o rei para que escolhesse sua nova rainha.
No dia em que Esther foi levada perante o rei, não quis nenhum adorno. Foi enfeitada unicamente por sua beleza natural. O rei amou-a mais do que todas as mulheres que já tinha tido e, sem querer ver mais ninguém, colocou a coroa em sua cabeça fazendo dela sua rainha.
Ela não havia revelado a ninguém sua origem e havia algo em sua nova vida que deixava Esther alterada: todos os dias eram iguais, todos os dias havia uma festa e ela não conseguia lembrar que dia era Shabat. Por isso, resolveu dar às damas de companhia nomes que correspondiam aos sete dias da semana. Depois, mandou-as seguirem a ordem cronológica para servirem-na. Assim “firmamento” servia-a no domingo. “Dia do Trabalho”, na segunda-feira; “Jardim” na terça-feira e assim por diante. Quando chegava a vez da Repouso era dia de Shabat. Assim, mesmo vivendo no palácio, longe do seu povo e ocultando a todos sua origem judaica, conseguiu ficar fiel a suas origens.
Pouco tempo depois de Rainha Esther ter se tornado rainha, Mordechai, tomou conhecimento de uma trama para assassinar o rei e contou o fato à sobrinha, que, por sua vez, alertou o rei Assuero. Os envolvidos foram enforcados e a atitude de Mordechai, que havia salvo a vida do soberano, foi incluída no registro das Crônicas Reais.
Logo após este acontecimento o Rei Assuero escolheu Haman, o Agaguita, descendente do povo Amlek, arquiinimigo histórico do povo judeu, para o cargo de Primeiro Ministro.
Contam nossos sábios que, Haman, quando jovem, havia sido soldado. Um dia, no deserto, ele e alguns companheiros se perderam do resto da tropa. Haman nada tinha para comer ou beber e ficou tão desesperado, que prometeu ser escravo pelo resto da vida de quem aceitasse dividir com ele a sua refeição. Ninguém aceitou, pois ninguém estava precisando de escravo no deserto, mas, assim, de comida para sobreviver. Até que um dos soldados se levanta e disse para Haman: “Se ninguém vem para nos salvar, vamos morrer de qualquer jeito. Divida comigo a ração”.
No mesmo dia veio a ajuda, todos foram salvos e o incidente foi esquecido. O tempo passou, Hamam ficou rico e foi morar em Shushan, onde se encontrava a corte do rei. Acabou ocupando primeiro lugar na hierarquia dos cortesãos.
Como nos relata o Talmud, Haman trazia em seu pescoço um ídolo e insistia para que os persas se curvassem diante dele. Um dia, percebeu que um homem recusava-se se a se curvar. Cheio de raiva, perguntou qual era razão e o homem respondeu: “Não me curvo diante de quem jurou ser meu escravo pelo resto da vida”. Haman reconheceu Mordechai e empalideceu. Ao voltar para casa, comentou o ocorrido com a sua mulher, Zeresh, que o aconselhou matar Mordechai, pois assim desaparecia o juramento.
“Isso não vai ser fácil”, disse Raman, “descobri que Mordechai tem a proteção da rainha”.
“Então” disse Zeresh, “a única forma é encontrar um meio de matar todos os judeus que povoam as 126 províncias do reino”.
Após esta conversa, Haman passou muitas noites em claro e acabou arquitetando um plano para matar todos os judeus. Começou caluniando-os perante o rei, dizendo que havia um povo que não respeitava suas leis e por isso não devia ser tolerado por ele. Ofereceu ao rei 10 mil moedas de prata em troca da permissão de aniquila-los. O rei acabou dando-lhe ouvidos e decretou a morte de todos os judeus. Um édito real foi divulgado em todo o reino, marcando o dia do mês de Adar, no calendário judaico, data de extermínio dos judeus persas.
Ao saber do decreto Mordechai desesperado procurou Esther e pediu que interdecesse junto ao soberano. Ela aconselhou que avisasse todos os judeus para jejuarem e orarem durante três dias. Ela também o faria e após este período iria se encontrar com o rei, mesmo sabendo que poderia correr o risco de ser condenada `a morte por aborda-lo sem ser convocada.
Após o jejum de três dias, Esther se dirigiu a Assuero, que encantado ao vê-la, recebeu-a dizendo que atenderia qualquer pedido que ela fizesse. Ela então convidou o rei e seu ministro Haman para um banquete.
Na mesma noite o rei, insone, pediu a um dos criados que lesse algumas passagens do registro das crônicas Reais. Ouviu, então, o relato da trama de assassina-lo, da qual fora salvo pelas mãos de Mordechai. O rei perguntou que honras havia sido conferidas a Mordechai, nenhuma responderam os servos.
Naquela mesma hora, Haman entrou para pedir a Assuero autorização para enforcar Mordechai, por ter-se recusado, uma vez mais, a curva-se diante dele. Mas, antes de Haman falar, o rei pergunta-lhe o que ele deveria fazer para um homem que ele, o rei, quisesse honrar. E Haman respondeu: “Que sejam trajes reais que o rei usa e o cavalo que ele monta e que seja posta uma coroa real sobre a sua cabeça”.
Antes do ministro terminar de falar, o soberano lhe ordena fazer isto com Mordechai, pois ele era o homem a quem o rei queria prestar honras. E assim, Haman o fez. Paramentando-o com vestimentas reais, levou-o a desfilar montado no cavalo real por toda a capital da Pérsia.
No dia do banquete na presença de Haman, a rainha Esther revela sua identidade judaica anunciando-lhe que ela e seu povo estavam prestes a ser exterminados.
Pede por sua vida e pela de seu povo. Identifica Haman como se arquiinimigo. O soberano se enfurece contra Haman e manda enforca-lo, junto com seus filhos, na mesma força que ele preparara para Mordechai.
Assuero nomeia Mordechai para o cargo de primeiro-ministro, em substituição a Raman. E, como não podia anular seu próprio decreto, promulga um segundo édito dando aos judeus o direito de combater e até mesmo matar qualquer um que tentasse fazer-lhes mal.
No dia 13 de Adar – o dia que fora designado para a destruição dos judeus – o povo judeu emergiu vitorioso sobre seus inimigos e, como nos relata a Meguila, “Para os judeus, surge luz e felicidade, júbilo e glória” (Meguila Esther 8:16).
Os dias seguintes, 14 e 15, passaram a ser os dias de festa de Purim, em comemoração por terem sido salvos.
Mordechai instituiu três práticas entre o seu povo para a época de Purim: fazer refeição festiva, trocar alimentos e fazer donativos aos pobres.